terça-feira, 21 de abril de 2026

Dor não é normal — quando investigar?

 


A dor é um dos sintomas mais comuns na prática médica, mas nem sempre recebe a devida atenção. Em muitos casos, é normalizada pelo próprio paciente, que passa a conviver com o desconforto como se fosse parte da rotina.

No entanto, a presença de dor frequente ou persistente não deve ser considerada normal.

Define-se como dor crônica aquela com duração superior a três meses. Nesses casos, a dor deixa de ser apenas um sinal de alerta do organismo e passa a envolver mecanismos mais complexos, incluindo alterações no sistema nervoso central, na percepção da dor e na regulação do sono.

Entre os principais sinais de alerta para investigação, destacam-se:

  • Dor persistente por mais de três meses
  • Falha de resposta a tratamentos convencionais
  • Presença de fadiga associada
  • Alterações do sono, como dificuldade para dormir ou sono não reparador

Um ponto importante é que a ausência de alterações em exames complementares não exclui a existência de dor. Condições como fibromialgia, por exemplo, não apresentam alterações estruturais evidentes, mas cursam com dor real e significativa.

Além disso, fatores como estresse crônico, distúrbios hormonais e alterações no padrão de sono podem influenciar diretamente na intensidade e manutenção da dor.

A abordagem da dor crônica deve ser individualizada e considerar múltiplos aspectos do paciente, indo além do tratamento exclusivamente medicamentoso.

Buscar avaliação médica adequada é fundamental para o correto diagnóstico e definição de um plano terapêutico eficaz.

A dor não deve ser negligenciada.

Ela deve ser compreendida e tratada.

sábado, 4 de abril de 2026

Medicina da Dor: entendendo a dor e as possibilidades de tratamento

 


A dor é uma experiência complexa, multifatorial e profundamente individual. Mais do que o quinto sinal vital, ela representa um fenômeno que envolve aspectos biológicos, emocionais e sociais, impactando diretamente a qualidade de vida, a funcionalidade e o bem-estar global do indivíduo.

A Medicina da Dor é a área dedicada à avaliação, diagnóstico e tratamento das diversas formas de dor, com uma abordagem ampla, baseada em evidências científicas e centrada no paciente.

O que é a dor?

Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), a dor é definida como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial”.

Isso significa que a dor não se limita a um dano físico visível — ela também pode envolver mecanismos neurológicos, inflamatórios e alterações na forma como o sistema nervoso processa os estímulos.

Tipos de dor

A dor pode ser classificada de diferentes formas, sendo as principais:

• Dor aguda: geralmente de início recente, com função de alerta
• Dor crônica: persiste por mais de 3 meses
• Dor nociceptiva: relacionada a lesão tecidual
• Dor neuropática: decorrente de disfunção do sistema nervoso
• Dor nociplástica: associada a alterações no processamento da dor

Dentro desse contexto, uma das condições mais frequentes na prática clínica é a fibromialgia, caracterizada por dor difusa, persistente e frequentemente acompanhada de fadiga, distúrbios do sono e alterações cognitivas.

A fibromialgia é mais prevalente em mulheres, especialmente entre os 30 e 60 anos. Pode surgir em diferentes fases da vida, mas muitas pacientes relatam piora ou maior reconhecimento dos sintomas no período do climatério e pós-menopausa, possivelmente influenciado por alterações hormonais, sono e estresse. Trata-se de uma condição de dor nociplástica, na qual há amplificação da percepção dolorosa pelo sistema nervoso central, sem necessariamente haver lesão estrutural evidente.

Como a dor é avaliada?

A avaliação da dor vai muito além de “onde dói”. Envolve:

  • História clínica detalhada
  • Caracterização da dor (intensidade, tipo, duração)
  • Impacto na funcionalidade e no sono
  • Aspectos emocionais e comportamentais
  • Exame físico direcionado
  • Exames complementares quando indicados

Essa abordagem permite identificar os mecanismos envolvidos — especialmente importante em condições como a fibromialgia, em que o diagnóstico é clínico.

Abordagem moderna da dor: um olhar integrativo

A Medicina da Dor atual utiliza um modelo biopsicossocial, reconhecendo que a dor é influenciada por fatores físicos, psicológicos, metabólicos e ambientais.

O tratamento é multimodal e individualizado, combinando diferentes estratégias:

Tratamentos farmacológicos e intervencionistas

O uso de medicamentos é sempre individualizado, podendo incluir analgésicos, anti-inflamatórios, antidepressivos, anticonvulsivantes, terapia de reposição hormonal, suplementação mineral e protéica e, em situações específicas,  uso de opioides sob rigoroso critério médico.

Além disso, técnicas intervencionistas têm papel importante no manejo da dor, especialmente em quadros musculoesqueléticos e articulares, como:

  • Infiltrações articulares e periarticulares
  • Procedimentos guiados para pontos gatilho (trigger points) 
  • Radiofrequência para modulação da dor
  • Técnicas minimamente invasivas

Essas abordagens permitem atuar diretamente nos focos de dor e modular vias nociceptivas de forma mais precisa.

Terapias não farmacológicas e integrativas

Cada vez mais, compreende-se que o controle da dor — especialmente em condições como a fibromialgia — depende fortemente de estratégias não medicamentosas.

Entre as principais:

  • Acupuntura, incluindo técnicas como agulhamento seco, eletroacupuntura e abordagens guiadas por recursos tecnológicos como câmera térmica (FLIR) 
  • Laserterapia e fotobiomodulação, com ação anti-inflamatória e analgésica
  • Exercício físico orientado e estruturado, um dos pilares do tratamento da dor crônica
  • Fisioterapia e reabilitação funcional como objetivo claro traçado 
  • Técnicas de relaxamento e manejo do estresse (gerenciamento dos pensamentos, higiene do sono e demais)

Essas terapias atuam tanto na modulação periférica quanto central da dor.

Fatores fundamentais no tratamento da dor

Um dos principais avanços na Medicina da Dor é o entendimento de que tratar apenas o sintoma não é suficiente. É essencial abordar fatores que perpetuam ou amplificam a dor:

Qualidade do sono
Distúrbios do sono estão diretamente relacionados ao aumento da percepção dolorosa, sendo especialmente relevantes na fibromialgia.

Nutrição e inflamação
A alimentação influencia processos inflamatórios e metabólicos, podendo impactar diretamente a dor.

Saúde mental
Ansiedade, depressão e estresse crônico modulam a dor e devem ser abordados de forma integrada.

Equilíbrio hormonal
Alterações hormonais, especialmente em mulheres no climatério, podem influenciar sintomas dolorosos, sono e disposição, sendo um ponto importante na avaliação individualizada.

Dor não é “normal” — e não deve ser negligenciada

Muitas pessoas convivem com dor por longos períodos acreditando que isso faz parte do envelhecimento ou da rotina. No entanto, a dor persistente merece avaliação adequada.

Condições como a fibromialgia exemplificam bem esse cenário: frequentemente subdiagnosticadas, podem gerar impacto significativo na qualidade de vida quando não reconhecidas e tratadas corretamente.

Um cuidado individualizado

Cada paciente é único. O tratamento da dor deve ser personalizado, respeitando as particularidades clínicas, os objetivos terapêuticos e o contexto de vida.

A proposta da Medicina da Dor é oferecer um cuidado completo, baseado em ciência, escuta ativa e estratégias terapêuticas integradas — com foco real na funcionalidade e na qualidade de vida.


Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.  

Agende sua avaliação: 



sábado, 25 de outubro de 2025

Inflammaging: a inflamação silenciosa que acelera o envelhecimento

 Vivemos mais, mas nem sempre com a qualidade de vida que desejamos — e uma das explicações vem de um conceito emergente da medicina de longevidade: o termo Inflammaging. Trata-se de uma inflamação de baixo grau, persistente e silenciosa, que surge com o envelhecimento do organismo e que pode funcionar como “combustível” para doenças crônicas que antes pensávamos serem inevitáveis com a idade.

Na prática, mesmo sem infecção ativa ou quadro clínico agudo, o corpo vai acumulando sinais inflamatórios: pequenas «chamas» internas acesas por muitos anos. Essas fagulhas silenciosas geram estresse oxidativo, alterações no sistema imune, desequilíbrio metabólico — e contribuem para a aceleração do envelhecimento biológico, ou “idade real maior que a cronológica”. 

Por que isso importa para você paciente? Porque o inflammaging está ligado ao risco aumentado de doenças como:

O que favorece esse estado inflamatório?
Alguns fatores conhecidos: acúmulo de gordura visceral, sedentarismo, alimentação desequilibrada, alterações da microbiota intestinal, estresse crônico, sono de má qualidade, e o envelhecimento das células-chave do sistema imune.

Mas há boas notícias: esse processo não está totalmente fora de controle — e pode ser modulado com estratégias de estilo de vida. Aqui vão dicas práticas que você, como paciente (ou com o apoio da sua médica), pode começar a adotar:

  1. Movimente-se: atividade física regular ajuda a reduzir inflamação, melhora o metabolismo e favorece o equilíbrio imunológico.

  2. Alimente-se bem: priorize alimentos mais naturais, ricos em fibras, com menor processamento; evite excesso de açúcares simples, carnes processadas e gordura saturada.

  3. Cuide do sono e do estresse: uma boa noite de sono (idealmente 7-9h, dependendo da idade) e estratégias de relaxamento reduzem o impacto inflamatório do dia a dia.

  4. Controle o peso corporal e a gordura visceral: mesmo pequenas reduções de gordura abdominal fazem diferença.

  5. Valorize a saúde intestinal e imune: manter a microbiota saudável (via alimentação, evitar uso desnecessário de antibióticos, etc) ajuda a evitar que o “meio interno” fique propício à inflamação de baixo grau.

  6. Monitore-se com acompanhamento médico: exames de rotina, discussão de fatores de risco cardiovascular, metabólico e imunológico podem ajudar a identificar e intervir precocemente.

TAKE HOME MESSAGE

O inflammaging nos lembra que o envelhecimento não é apenas “tempo no relógio”, mas “tempo no corpo” — e que esse “tempo” pode ser mais ou menos bem vivido dependendo das escolhas que fazemos hoje. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Jejum intermitente e resistência à insulina

 


O jejum intermitente tem ganhado espaço não apenas como estratégia para emagrecimento, mas também como uma forma eficaz de melhorar o metabolismo e restaurar a sensibilidade à insulina.

Mais do que uma dieta, ele representa um retorno ao ritmo natural do corpo — períodos de alimentação intercalados com momentos de repouso metabólico.

Durante o jejum, o organismo reduz a liberação de insulina e passa a utilizar gordura como principal fonte de energia. Essa pausa nos estímulos alimentares constantes permite que as células recuperem a sensibilidade à insulina, reduzindo o acúmulo de gordura abdominal e melhorando o controle da glicose no sangue.

Com o tempo, essa prática contribui para diminuir a resistência insulínica, um dos principais mecanismos associados à obesidade, síndrome metabólica, esteatose hepática e risco de diabetes tipo 2.

Além dos efeitos sobre a glicose, o jejum intermitente estimula a autofagia, um processo natural de “limpeza celular” que remove estruturas danificadas e reduz inflamações de baixo grau.
Também pode melhorar o perfil lipídico, a pressão arterial e marcadores de estresse oxidativo.

Existem diferentes formas de jejum, sendo as mais comuns:

  • 16:8 – 16 horas em jejum e 8 horas de janela alimentar;

  • 14:10 – jejum de 14 horas, mais leve e acessível à maioria das pessoas;

  • 5:2 – dois dias da semana com restrição calórica importante;

  • 23:1 (OMAD) – conhecido como One Meal a Day, consiste em permanecer 23 horas em jejum e concentrar toda a ingestão alimentar em uma única refeição diária.
    Essa modalidade exige acompanhamento médico e nutricional rigoroso, pois, embora possa favorecer o controle glicêmico e a autofagia, não é indicada para todos os perfis metabólicos.

Durante o jejum, é permitido consumir água, café preto sem açúcar e chás sem calorias. Na janela alimentar, é importante priorizar alimentos naturais: proteínas magras, gorduras boas e vegetais.

Quando bem orientado, o jejum intermitente ajuda o corpo a recuperar sua flexibilidade metabólica — a capacidade de alternar entre glicose e gordura como combustível — e se torna um aliado poderoso na prevenção e tratamento da resistência à insulina.


O jejum não é sobre privação, e sim sobre dar ao corpo tempo para requisitar os estoques energéticos e desinflamar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Magnésio e Dor Crônica: qual a relação?

 

A dor crônica é uma condição que vai muito além do desconforto físico. Ela afeta o sono, o humor, a energia e, muitas vezes, o prazer de viver. É um estado em que o corpo parece “não desligar” o sinal da dor, mesmo quando já não há uma lesão evidente. Entre os diversos fatores que influenciam esse processo, um mineral se destaca por sua importância silenciosa, mas essencial: o magnésio.

O magnésio participa de mais de 300 reações químicas no organismo, sendo fundamental para a produção de energia, o relaxamento muscular, a regulação dos nervos e o equilíbrio emocional. Quando seus níveis estão baixos, o corpo pode apresentar sintomas como cansaço, tensão muscular, câimbras, irritabilidade, ansiedade e dor generalizada — muito parecidos com os relatados por pessoas com fibromialgia.

Nos últimos anos, vários estudos mostraram que pacientes com fibromialgia tendem a ter níveis reduzidos de magnésio no sangue e nos tecidos. Essa deficiência pode aumentar a sensibilidade à dor e favorecer processos inflamatórios e de fadiga muscular. O magnésio ajuda a “acalmar” o sistema nervoso e atua como um modulador natural da dor, reduzindo a atividade de receptores cerebrais que amplificam os estímulos dolorosos.

Além disso, o magnésio tem efeito direto sobre o sono e o relaxamento, pois participa da produção de neurotransmissores que promovem tranquilidade e bem-estar, como o GABA. Por isso, pessoas que usam magnésio de forma adequada costumam relatar melhora na qualidade do sono, diminuição da ansiedade e redução da dor muscular.

Existem diferentes tipos de magnésio, e alguns são mais indicados para cada necessidade:

A suplementação deve sempre ser orientada por um profissional, pois o excesso também pode causar desconforto intestinal ou interagir com outros medicamentos.
Além disso, é importante associar o magnésio a hábitos que fortalecem o equilíbrio do organismo: boa alimentação, atividade física leve e sono de qualidade.

O magnésio não é uma “cura” para a fibromialgia, mas pode ser um grande aliado na redução da dor e na melhora da vitalidade. É uma forma segura e natural de apoiar o corpo em seus próprios mecanismos de equilíbrio e regeneração.

domingo, 5 de outubro de 2025

OUTUBRO ROSA: cuidar de si é um ato de amor!

 

Outubro é o mês de lembrar, reforçar e agir.

O Outubro Rosa não é apenas uma campanha — é um convite para que mulheres de todas as idades olhem para si com atenção, carinho e responsabilidade.

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo. Quando diagnosticado precocemente, as chances de cura ultrapassam 90%. Isso mostra que o diagnóstico precoce é uma das formas mais poderosas de salvar vidas.

O autoexame das mamas é uma ferramenta importante de autoconhecimento, mas não substitui o exame clínico nem a mamografia. O rastreamento é essencial, e o Brasil deu um passo importante nesse sentido: a partir de 2025, o Ministério da Saúde ampliou a faixa etária de acesso à mamografia no SUS, permitindo que mulheres a partir dos 40 anos possam realizar o exame, mesmo sem sintomas, após decisão compartilhada com o profissional de saúde.

Além disso, a nova diretriz recomenda o rastreamento populacional regular para mulheres entre 50 e 74 anos, a cada dois anos. Essa atualização torna o cuidado mais acessível e alinhado à realidade atual das mulheres brasileiras, garantindo mais oportunidades de diagnóstico precoce e de cuidado integral.

A prevenção, no entanto, vai muito além do exame. Ela começa nas escolhas diárias que fortalecem o corpo, equilibram os hormônios e refletem o respeito à própria saúde.
Manter uma alimentação natural e rica em fibras, praticar atividade física com regularidade, dormir bem, evitar o tabagismo e o consumo de álcool e cultivar o bem-estar emocional são atitudes que reduzem o risco de adoecimento e promovem qualidade de vida.

A saúde feminina é integral — corpo, mente e hormônios trabalham em sintonia.
Cuidar de um é cuidar de todos. 🌸

“O Outubro Rosa é mais do que um mês de conscientização — é um lembrete de que autocuidado e prevenção são formas de amor-próprio e respeito pela vida.
Se ainda não fez seus exames este ano, converse com seu médico e agende sua mamografia. Cuidar de si é um ato de amor. 💖

Porque prevenção é vida.
E a vida merece ser celebrada. 🌸✨

domingo, 3 de agosto de 2025

ANDAR 7 MIL PASSOS POR DIA PODE MUDAR SUA SAÚDE


 Você não precisa correr maratonas nem passar horas na academia para começar a transformar sua saúde. A ciência mostra que caminhar ao menos 7.000 passos por dia já está associado a benefícios expressivos para a longevidade, saúde cardiovascular, controle metabólico e saúde mental.

Coração mais protegido

Estudos indicam que pessoas que caminham 7.000 passos por dia têm redução significativa no risco de mortalidade por causas cardiovasculares. A atividade leve a moderada regular ajuda a reduzir a pressão arterial, melhora o perfil lipídico e reduz a inflamação crônica.

Corpo em movimento, mente ativa

Caminhar diariamente estimula o fluxo sanguíneo cerebral, melhora o humor, reduz a ansiedade e os sintomas depressivos. Além disso, previne o declínio cognitivo associado à idade.

Equilíbrio metabólico

Caminhadas regulares contribuem para o controle da glicemia, da resistência insulínica e do peso corporal, sendo uma ferramenta simples, barata e acessível para prevenção de doenças como diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Longevidade e vitalidade

Uma pesquisa de 2021 com mais de 2.000 adultos mostrou que andar 7.000 passos por dia estava associado a uma redução de até 70% na mortalidade por todas as causas, em comparação com quem andava menos de 5.000 passos.

Link para o aplicativo PACER


📌 A mensagem é simples:

Ande mais. Sente-se menos. Viva melhor.
Se você ainda não consegue atingir 10.000 passos, comece por 7.000. Isso já faz uma enorme diferença.



REFERÊNCIAS:

1. Paluch AE, Gabriel KP, Fulton JE, et al. Steps per Day and All-Cause Mortality in Middle-aged Adults in the Coronary Artery Risk Development in Young Adults Study. JAMA Netw Open. 2021;4(9):e2124516. doi:10.1001/jamanetworkopen.2021.24516


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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida


segunda-feira, 16 de junho de 2025

LUZ AZUL, MELATONINA E SONO: COMO A ILUMINAÇÃO AFETA SUA SAÚDE?




Nas últimas décadas, a exposição à luz artificial se tornou um dos fatores mais negligenciados quando falamos em saúde metabólica, mental e hormonal. E entre os tipos de luz que mais interferem nos nossos ritmos biológicos, a luz azul merece atenção especial.


O que é a luz azul e de onde ela vem?


A luz azul faz parte do espectro de luz visível e possui comprimento de onda curto (entre 400–495 nm), sendo naturalmente emitida pelo sol. No entanto, atualmente nossas principais fontes de luz azul artificial são:
  • Telas de celulares, computadores e TVs

  • Lâmpadas de LED e fluorescentes

  • Dispositivos eletrônicos em geral

Essas fontes prolongam artificialmente a exposição à luz azul durante a noite, o que tem impactos profundos sobre o ciclo circadiano.



Como a luz azul interfere na melatonina?



A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, cuja liberação está diretamente ligada à percepção de escuridão. Quando a retina detecta ausência de luz, especialmente luz azul, a produção de melatonina aumenta, sinalizando ao corpo que é hora de iniciar o processo do sono.

O problema é que a luz azul inibe a produção natural de melatonina, mesmo em baixa intensidade. Isso significa que:

  • O início do sono é retardado

  • O sono profundo (fase N3) é comprometido

  • A qualidade do descanso é reduzida

  • Há desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA)



Por que a melatonina é tão importante?


Muito além do sono, a melatonina tem efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, neuroprotetores e imunomoduladores. Sua produção adequada está associada à:
  • Regulação do metabolismo energético

  • Modulação do humor e saúde mental

  • Proteção mitocondrial e do DNA

  • Qualidade do sistema imunológico

Baixos níveis de melatonina têm sido correlacionados com maior risco de depressão, distúrbios de ansiedade, obesidade, diabetes tipo 2 e doenças neurodegenerativas.



Como a luz vermelha pode ajudar à noite?

Diferentemente da luz azul, a luz vermelha (comprimento de onda > 620 nm) não suprime a melatonina — e pode inclusive estimular sua liberação em ambientes escuros, segundo estudos recentes.

A exposição à luz vermelha suave no período noturno:

  • Não atrapalha o ritmo circadiano

  • Pode facilitar o relaxamento

  • É uma alternativa mais segura para iluminação noturna em quartos e banheiros

  • Está sendo estudada como coadjuvante em intervenções para insônia e ansiedade leve



Estratégias práticas

  • Evitar o uso de telas 1 a 2 horas antes de dormir

  • Ativar filtros de luz azul em dispositivos eletrônicos após o pôr do sol

  • Preferir luzes âmbar ou vermelhas em ambientes noturnos

  • Manter o quarto escuro ou com iluminação vermelha fraca durante a madrugada

  • Avaliar, com orientação médica, o uso pontual de melatonina em casos específicos



TAKE-HOME MESSAGE: 

📌 Cuidar da higiene da luz é cuidar da higiene do sono — e, por consequência, da saúde mental, metabólica e imunológica.


📚 Referências


  1. Cajochen, C., Frey, S., Anders, D., Späti, J., Bues, M., Pross, A., Stefani, O., & Wirz-Justice, A. (2011). Evening exposure to a light-emitting diodes (LED)-backlit computer screen affects circadian physiology and cognitive performance. Journal of Applied Physiology, 110(5), 1432–1438. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.00165.2011

  2. Gooley, J. J., Chamberlain, K., Smith, K. A., Khalsa, S. B. S., Rajaratnam, S. M. W., Van Reen, E., Zeitzer, J. M., Czeisler, C. A., & Lockley, S. W. (2011). Exposure to room light before bedtime suppresses melatonin onset and shortens melatonin duration in humans. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 96(3), E463–E472. https://doi.org/10.1210/jc.2010-2098

  3. Figueiro, M. G., Wood, B., Plitnick, B., & Rea, M. S. (2011). The impact of light from computer monitors on melatonin levels in college students. Neuro Endocrinology Letters, 32(2), 158–163. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21552190/

  4. Zhou, J., Liu, D., Li, X., Ma, X., Fang, J., & Zhang, J. (2012). Light exposure before sleep and its impact on sleep quality: A clinical review. Sleep and Biological Rhythms, 10(1), 50–59. https://doi.org/10.1111/j.1479-8425.2011.00515.x



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Forte abraço,
Danielle Almeida
Médica CRM- RS: 59632

sábado, 14 de junho de 2025

DORMIR BEM É MAIS DO QUE DEITAR E FECHAR OS OLHOS: AS FASES DO SONO E O DESAFIO DO TRABALHO NOTURNO


Dormir é uma das funções biológicas mais essenciais para a manutenção da saúde física, mental e imunológica. Mas nem todo sono é igual — e entender as fases que compõem o ciclo do sono pode ser o primeiro passo para melhorar sua recuperação, equilíbrio hormonal e desempenho cognitivo.



As fases do sono: um ciclo essencial à saúde

O sono é dividido em duas grandes categorias:

  • Sono não REM (NREM)

  • Sono REM (movimento rápido dos olhos)

O sono NREM é composto por três estágios progressivos de profundidade: N1, N2 e N3. A cada 90 a 110 minutos, passamos por um ciclo completo (NREM (3 fases) → REM), e uma boa noite de sono contém entre 4 e 6 desses ciclos.



Fase N3: o sono profundo e restaurador


A fase N3, também chamada de sono de ondas lentas ou sono delta, é o estágio de sono mais profundo e reparador. Durante essa fase:
  • liberação intensa do hormônio do crescimento (GH)

  • O corpo realiza reparos musculares, teciduais e ósseos

  • O cérebro ativa o sistema glinfático (células da glia e linfático), responsável por “limpar” resíduos metabólicos

  • A imunidade é reforçada por meio da produção de citocinas anti-inflamatórias

  • Ocorre consolidação de memórias declarativas

Pessoas que despertam durante essa fase tendem a se sentir mais desorientadas e sonolentas. É por isso que despertadores que respeitam o ciclo natural do sono (como apps que analisam movimento corporal) vêm ganhando espaço.



Qual o melhor horário para dormir?

De acordo com estudos em cronobiologia, o corpo humano segue um ritmo circadiano natural — sincronizado com a luz solar e a liberação de melatonina.

  • A melatonina começa a subir entre 20h e 22h, com pico entre 2h e 4h da manhã

  • A fase N3 ocorre com maior intensidade nas primeiras horas do sono noturno

  • Dormir entre 22h e 23h tende a ser mais eficiente para recuperação física e hormonal, principalmente para quem deseja manter equilíbrio metabólico, desempenho cognitivo e imunidade

Ir dormir após 1h da manhã, mesmo que a duração total do sono seja mantida, pode prejudicar a proporção de fases profundas e comprometer a regulação do eixo HHA (hipotálamo-hipófise-adrenal).



E quem trabalha à noite? Como minimizar os efeitos?

Sabemos que trabalhar no turno da noite ou em plantões rotativos é uma realidade para muitas pessoas, especialmente na área da saúde, indústria, segurança e transporte. Embora o sono noturno seja o mais alinhado ao nosso ritmo biológico, existem estratégias eficazes para reduzir os impactos da inversão desse ciclo e promover mais equilíbrio mesmo em rotinas noturnas.

Estratégias possíveis:

  • Ambiente de sono escuro e silencioso após o turno (cortinas blackout, protetores auriculares)

  • Uso de óculos bloqueadores de luz azul ao sair do trabalho pela manhã

  • Evitar cafeína nas últimas horas do turno

  • Priorizar sonecas estruturadas antes e depois do trabalho

  • Em casos específicos, melatonina em dose baixa e controlada e outros ativos fitoterápicos, sob orientação médica

  • Manutenção de horários regulares de sono nos dias de folga, para evitar disritmias

Estudos mostram que mesmo nesses cenários, manter a quantidade total e a qualidade do sono N3 e REM reduz os impactos no humor, memória, imunidade e saúde cardiovascular.



Dormir bem é um cuidado essencial

O sono não é perda de tempo — é um estado ativo e vital que determina desde o equilíbrio emocional até a resistência imunológica. Reconhecer suas fases, respeitar o ritmo biológico e adotar estratégias inteligentes é parte essencial do autocuidado.



📚 Referências

  1. Cirelli, C., & Tononi, G. (2017). Effects of sleep and waking on brain function and plasticity. Current Opinion in Neurobiology, 44, 96–102. https://doi.org/10.1016/j.conb.2017.03.006

  2. Mander, B. A., Winer, J. R., & Walker, M. P. (2017). Sleep and human aging. Neuron, 94(1), 19–36. https://doi.org/10.1016/j.neuron.2017.02.004

  3. Goel, N., Basner, M., Rao, H., & Dinges, D. F. (2013). Circadian rhythms, sleep deprivation, and human performance. Progress in Molecular Biology and Translational Science, 119, 155–190. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-396971-2.00007-5

  4. Akerstedt, T., & Wright, K. P. (2009). Sleep loss and fatigue in shift work and shift work disorder. Sleep Medicine Clinics, 4(2), 257–271. https://doi.org/10.1016/j.jsmc.2009.03.001

  5. Wright, K. P., Jr., McHill, A. W., Birks, B. R., Griffin, B. R., Rusterholz, T., & Chinoy, E. D. (2013). Entrainment of the human circadian clock to the natural light-dark cycle. Current Biology, 23(16), 1554–1558. https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.06.039



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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida


sábado, 7 de junho de 2025

O PODER DO MOVIMENTO NO TRATAMENTO DA DOR CRÔNICA

 

A dor musculoesquelética crônica é um dos maiores desafios de saúde pública global, afetando cerca de 30% da população mundial. Entre as mulheres, essa condição é ainda mais prevalente: estudos indicam que mais de 40% das mulheres adultas sofrem com algum tipo de dor crônica persistente, sendo duas vezes mais afetadas que os homens. As causas são multifatoriais, envolvendo desde aspectos hormonais até maior suscetibilidade à sensibilização central, um fenômeno em que o sistema nervoso amplifica a percepção da dor.

Um dos quadros mais comuns e incapacitantes dentro desse espectro é a fibromialgia, que atinge entre 6% e 8% das mulheres, sobretudo entre os 30 e 60 anos de idade. A dor é generalizada, persistente, frequentemente acompanhada de fadiga intensa, distúrbios do sono, alterações cognitivas (o conhecido “fibrofog”) e grande impacto funcional. A prevalência atinge seu pico entre os 40 e 55 anos, justamente quando muitas mulheres enfrentam desafios hormonais, emocionais e metabólicos.

O tratamento padrão-ouro para a fibromialgia e outras síndromes de dor crônica não é medicamentoso, mas sim multimodal, estruturado em três pilares principais:

  • Educação em dor baseada em neurociência;

  • Exercício físico supervisionado e progressivo;

  • Terapias cognitivo-comportamentais, com foco em sono, estresse e comportamento funcional.

Como médica, venho constantemente orientando minhas pacientes para a adoção gradual e estruturada de mudanças de estilo de vida (a famosa MEV 😊) — não como uma obrigação genérica, mas como um componente terapêutico ativo e essencial. A prática clínica tem mostrado que intervenções bem conduzidas em sono, alimentação, movimento e manejo do estresse transformam profundamente o prognóstico dessas pacientes.

Nesse contexto, uma revisão publicada recentemente no Journal of Functional Morphology and Kinesiology reforça essa abordagem, posicionando o exercício físico como um verdadeiro modulador central da dor crônica. Ele promove analgesia neuroquímica (via endorfinas, serotonina e endocanabinoides), reduz a sensibilização central e ainda atua em diversos eixos de estilo de vida: melhora a qualidade do sono, modula o eixo do estresse, regula o apetite e contribui na cessação de hábitos nocivos como o tabagismo.

Ou seja, o movimento deixa de ser uma recomendação genérica e se torna uma ferramenta terapêutica robusta, com efeitos duradouros sobre a dor e seus fatores perpetuadores. E quando inserido em um plano individualizado e consciente, torna-se um verdadeiro aliado da autonomia e do bem-estar.



1. Alívio da dor e neuroplasticidade

  • Atividade física estimula a liberação de endorfinas, endocanabinoides, dopamina e serotonina .

  • Reduz a sensibilização central e a neuroinflamação.

  • Melhora a função mitocondrial e regula neurotransmissores associados à dor e bem-estar.



2. Sono de qualidade

  • Exercício melhora o sono profundo (fase N3) e a regulação do ciclo circadiano.

  • Reduz níveis de citocinas inflamatórias e aumenta melatonina e serotonina.

  • Pode ser combinado com terapia cognitivo-comportamental para insônia em pacientes com dor crônica.



 3. Redução do estresse

  • Diminui o tônus simpático basal e os níveis de cortisol.

  • Favorece resiliência emocional e melhora a tolerância ao estresse.

  • A prática em grupo ou em ambientes naturais potencializa esses efeitos.



4. Impacto positivo na alimentação e metabolismo

  • Aumenta a sensibilidade à insulina e regula hormônios como leptina e grelina, ajudando no controle do apetite.

  • Reduz compulsões alimentares e melhora a relação emocional com a comida.

  • Favorece padrões dietéticos anti-inflamatórios e modula o sistema de recompensa cerebral.



5. Redução do tabagismo

  • Reduz a recompensa associada ao fumo, aliviando sintomas de abstinência e ansiedade.

  • Estimula os sistemas dopaminérgico e endocanabinoide, ajudando na cessação do tabaco.

  • Melhora o autocontrole e a saúde mental, fortalecendo a adesão ao processo de parar de fumar.



TAKE-HOME MESSAGE: 

A atividade física não é apenas uma estratégia complementar — ela é central na abordagem integrativa da dor crônica. Seus efeitos cruzam domínios como sono, estresse, nutrição e dependência química. Programas personalizados, associados à educação em dor, nutrição e estratégias comportamentais, promovem resultados mais duradouros e sustentáveis.



📚 Referências

  1. Núñez-Cortés R, Salazar-Méndez J, Nijs J. Physical Activity as a Central Pillar of Lifestyle Modification in the Management of Chronic Musculoskeletal Pain: A Narrative Review. J Funct Morphol Kinesiol. 2025;10(2):183. DOI: 10.3390/jfmk10020183

  2. Dellaroza MSG, Pimenta CAM, Matsuo T. Prevalência e características da dor crônica em adultos da comunidade. Rev Bras Anestesiol. 2007;57(6):607-613. Disponível em: https://www.scielo.br/j/brjp/a/Ycrw5pYxPJnwzmkKyBvjzDC/

  3. Castro M, Quarantini LC, Batista-Neves S, et al. Fibromialgia: estudo sobre prevalência, comorbidades e características clínicas. Rev Bras Reumatol. 2011;51(5):361-365. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbr/a/sxgGPbXJCrFy7CTf7f5szPS/




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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida







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