sábado, 14 de junho de 2025

DORMIR BEM É MAIS DO QUE DEITAR E FECHAR OS OLHOS: AS FASES DO SONO E O DESAFIO DO TRABALHO NOTURNO


Dormir é uma das funções biológicas mais essenciais para a manutenção da saúde física, mental e imunológica. Mas nem todo sono é igual — e entender as fases que compõem o ciclo do sono pode ser o primeiro passo para melhorar sua recuperação, equilíbrio hormonal e desempenho cognitivo.



As fases do sono: um ciclo essencial à saúde

O sono é dividido em duas grandes categorias:

  • Sono não REM (NREM)

  • Sono REM (movimento rápido dos olhos)

O sono NREM é composto por três estágios progressivos de profundidade: N1, N2 e N3. A cada 90 a 110 minutos, passamos por um ciclo completo (NREM (3 fases) → REM), e uma boa noite de sono contém entre 4 e 6 desses ciclos.



Fase N3: o sono profundo e restaurador


A fase N3, também chamada de sono de ondas lentas ou sono delta, é o estágio de sono mais profundo e reparador. Durante essa fase:
  • liberação intensa do hormônio do crescimento (GH)

  • O corpo realiza reparos musculares, teciduais e ósseos

  • O cérebro ativa o sistema glinfático (células da glia e linfático), responsável por “limpar” resíduos metabólicos

  • A imunidade é reforçada por meio da produção de citocinas anti-inflamatórias

  • Ocorre consolidação de memórias declarativas

Pessoas que despertam durante essa fase tendem a se sentir mais desorientadas e sonolentas. É por isso que despertadores que respeitam o ciclo natural do sono (como apps que analisam movimento corporal) vêm ganhando espaço.



Qual o melhor horário para dormir?

De acordo com estudos em cronobiologia, o corpo humano segue um ritmo circadiano natural — sincronizado com a luz solar e a liberação de melatonina.

  • A melatonina começa a subir entre 20h e 22h, com pico entre 2h e 4h da manhã

  • A fase N3 ocorre com maior intensidade nas primeiras horas do sono noturno

  • Dormir entre 22h e 23h tende a ser mais eficiente para recuperação física e hormonal, principalmente para quem deseja manter equilíbrio metabólico, desempenho cognitivo e imunidade

Ir dormir após 1h da manhã, mesmo que a duração total do sono seja mantida, pode prejudicar a proporção de fases profundas e comprometer a regulação do eixo HHA (hipotálamo-hipófise-adrenal).



E quem trabalha à noite? Como minimizar os efeitos?

Sabemos que trabalhar no turno da noite ou em plantões rotativos é uma realidade para muitas pessoas, especialmente na área da saúde, indústria, segurança e transporte. Embora o sono noturno seja o mais alinhado ao nosso ritmo biológico, existem estratégias eficazes para reduzir os impactos da inversão desse ciclo e promover mais equilíbrio mesmo em rotinas noturnas.

Estratégias possíveis:

  • Ambiente de sono escuro e silencioso após o turno (cortinas blackout, protetores auriculares)

  • Uso de óculos bloqueadores de luz azul ao sair do trabalho pela manhã

  • Evitar cafeína nas últimas horas do turno

  • Priorizar sonecas estruturadas antes e depois do trabalho

  • Em casos específicos, melatonina em dose baixa e controlada e outros ativos fitoterápicos, sob orientação médica

  • Manutenção de horários regulares de sono nos dias de folga, para evitar disritmias

Estudos mostram que mesmo nesses cenários, manter a quantidade total e a qualidade do sono N3 e REM reduz os impactos no humor, memória, imunidade e saúde cardiovascular.



Dormir bem é um cuidado essencial

O sono não é perda de tempo — é um estado ativo e vital que determina desde o equilíbrio emocional até a resistência imunológica. Reconhecer suas fases, respeitar o ritmo biológico e adotar estratégias inteligentes é parte essencial do autocuidado.



📚 Referências

  1. Cirelli, C., & Tononi, G. (2017). Effects of sleep and waking on brain function and plasticity. Current Opinion in Neurobiology, 44, 96–102. https://doi.org/10.1016/j.conb.2017.03.006

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  3. Goel, N., Basner, M., Rao, H., & Dinges, D. F. (2013). Circadian rhythms, sleep deprivation, and human performance. Progress in Molecular Biology and Translational Science, 119, 155–190. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-396971-2.00007-5

  4. Akerstedt, T., & Wright, K. P. (2009). Sleep loss and fatigue in shift work and shift work disorder. Sleep Medicine Clinics, 4(2), 257–271. https://doi.org/10.1016/j.jsmc.2009.03.001

  5. Wright, K. P., Jr., McHill, A. W., Birks, B. R., Griffin, B. R., Rusterholz, T., & Chinoy, E. D. (2013). Entrainment of the human circadian clock to the natural light-dark cycle. Current Biology, 23(16), 1554–1558. https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.06.039



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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida


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