A dor musculoesquelética crônica é um dos maiores desafios de saúde pública global, afetando cerca de 30% da população mundial. Entre as mulheres, essa condição é ainda mais prevalente: estudos indicam que mais de 40% das mulheres adultas sofrem com algum tipo de dor crônica persistente, sendo duas vezes mais afetadas que os homens. As causas são multifatoriais, envolvendo desde aspectos hormonais até maior suscetibilidade à sensibilização central, um fenômeno em que o sistema nervoso amplifica a percepção da dor.
Um dos quadros mais comuns e incapacitantes dentro desse espectro é a fibromialgia, que atinge entre 6% e 8% das mulheres, sobretudo entre os 30 e 60 anos de idade. A dor é generalizada, persistente, frequentemente acompanhada de fadiga intensa, distúrbios do sono, alterações cognitivas (o conhecido “fibrofog”) e grande impacto funcional. A prevalência atinge seu pico entre os 40 e 55 anos, justamente quando muitas mulheres enfrentam desafios hormonais, emocionais e metabólicos.
O tratamento padrão-ouro para a fibromialgia e outras síndromes de dor crônica não é medicamentoso, mas sim multimodal, estruturado em três pilares principais:
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Educação em dor baseada em neurociência;
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Exercício físico supervisionado e progressivo;
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Terapias cognitivo-comportamentais, com foco em sono, estresse e comportamento funcional.
Como médica, venho constantemente orientando minhas pacientes para a adoção gradual e estruturada de mudanças de estilo de vida (a famosa MEV 😊) — não como uma obrigação genérica, mas como um componente terapêutico ativo e essencial. A prática clínica tem mostrado que intervenções bem conduzidas em sono, alimentação, movimento e manejo do estresse transformam profundamente o prognóstico dessas pacientes.
Nesse contexto, uma revisão publicada recentemente no Journal of Functional Morphology and Kinesiology reforça essa abordagem, posicionando o exercício físico como um verdadeiro modulador central da dor crônica. Ele promove analgesia neuroquímica (via endorfinas, serotonina e endocanabinoides), reduz a sensibilização central e ainda atua em diversos eixos de estilo de vida: melhora a qualidade do sono, modula o eixo do estresse, regula o apetite e contribui na cessação de hábitos nocivos como o tabagismo.
Ou seja, o movimento deixa de ser uma recomendação genérica e se torna uma ferramenta terapêutica robusta, com efeitos duradouros sobre a dor e seus fatores perpetuadores. E quando inserido em um plano individualizado e consciente, torna-se um verdadeiro aliado da autonomia e do bem-estar.
1. Alívio da dor e neuroplasticidade
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Atividade física estimula a liberação de endorfinas, endocanabinoides, dopamina e serotonina .
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Reduz a sensibilização central e a neuroinflamação.
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Melhora a função mitocondrial e regula neurotransmissores associados à dor e bem-estar.
2. Sono de qualidade
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Exercício melhora o sono profundo (fase N3) e a regulação do ciclo circadiano.
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Reduz níveis de citocinas inflamatórias e aumenta melatonina e serotonina.
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Pode ser combinado com terapia cognitivo-comportamental para insônia em pacientes com dor crônica.
3. Redução do estresse
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Diminui o tônus simpático basal e os níveis de cortisol.
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Favorece resiliência emocional e melhora a tolerância ao estresse.
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A prática em grupo ou em ambientes naturais potencializa esses efeitos.
4. Impacto positivo na alimentação e metabolismo
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Aumenta a sensibilidade à insulina e regula hormônios como leptina e grelina, ajudando no controle do apetite.
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Reduz compulsões alimentares e melhora a relação emocional com a comida.
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Favorece padrões dietéticos anti-inflamatórios e modula o sistema de recompensa cerebral.
5. Redução do tabagismo
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Reduz a recompensa associada ao fumo, aliviando sintomas de abstinência e ansiedade.
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Estimula os sistemas dopaminérgico e endocanabinoide, ajudando na cessação do tabaco.
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Melhora o autocontrole e a saúde mental, fortalecendo a adesão ao processo de parar de fumar.
TAKE-HOME MESSAGE:
A atividade física não é apenas uma estratégia complementar — ela é central na abordagem integrativa da dor crônica. Seus efeitos cruzam domínios como sono, estresse, nutrição e dependência química. Programas personalizados, associados à educação em dor, nutrição e estratégias comportamentais, promovem resultados mais duradouros e sustentáveis.
📚 Referências
Núñez-Cortés R, Salazar-Méndez J, Nijs J. Physical Activity as a Central Pillar of Lifestyle Modification in the Management of Chronic Musculoskeletal Pain: A Narrative Review. J Funct Morphol Kinesiol. 2025;10(2):183. DOI: 10.3390/jfmk10020183
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Dellaroza MSG, Pimenta CAM, Matsuo T. Prevalência e características da dor crônica em adultos da comunidade. Rev Bras Anestesiol. 2007;57(6):607-613. Disponível em: https://www.scielo.br/j/brjp/a/Ycrw5pYxPJnwzmkKyBvjzDC/
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Castro M, Quarantini LC, Batista-Neves S, et al. Fibromialgia: estudo sobre prevalência, comorbidades e características clínicas. Rev Bras Reumatol. 2011;51(5):361-365. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbr/a/sxgGPbXJCrFy7CTf7f5szPS/
Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida
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