sábado, 4 de abril de 2026

Medicina da Dor: entendendo a dor e as possibilidades de tratamento

 


A dor é uma experiência complexa, multifatorial e profundamente individual. Mais do que o quinto sinal vital, ela representa um fenômeno que envolve aspectos biológicos, emocionais e sociais, impactando diretamente a qualidade de vida, a funcionalidade e o bem-estar global do indivíduo.

A Medicina da Dor é a área dedicada à avaliação, diagnóstico e tratamento das diversas formas de dor, com uma abordagem ampla, baseada em evidências científicas e centrada no paciente.

O que é a dor?

Segundo a Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP), a dor é definida como “uma experiência sensorial e emocional desagradável associada, ou semelhante àquela associada, a uma lesão tecidual real ou potencial”.

Isso significa que a dor não se limita a um dano físico visível — ela também pode envolver mecanismos neurológicos, inflamatórios e alterações na forma como o sistema nervoso processa os estímulos.

Tipos de dor

A dor pode ser classificada de diferentes formas, sendo as principais:

• Dor aguda: geralmente de início recente, com função de alerta
• Dor crônica: persiste por mais de 3 meses
• Dor nociceptiva: relacionada a lesão tecidual
• Dor neuropática: decorrente de disfunção do sistema nervoso
• Dor nociplástica: associada a alterações no processamento da dor

Dentro desse contexto, uma das condições mais frequentes na prática clínica é a fibromialgia, caracterizada por dor difusa, persistente e frequentemente acompanhada de fadiga, distúrbios do sono e alterações cognitivas.

A fibromialgia é mais prevalente em mulheres, especialmente entre os 30 e 60 anos. Pode surgir em diferentes fases da vida, mas muitas pacientes relatam piora ou maior reconhecimento dos sintomas no período do climatério e pós-menopausa, possivelmente influenciado por alterações hormonais, sono e estresse. Trata-se de uma condição de dor nociplástica, na qual há amplificação da percepção dolorosa pelo sistema nervoso central, sem necessariamente haver lesão estrutural evidente.

Como a dor é avaliada?

A avaliação da dor vai muito além de “onde dói”. Envolve:

  • História clínica detalhada
  • Caracterização da dor (intensidade, tipo, duração)
  • Impacto na funcionalidade e no sono
  • Aspectos emocionais e comportamentais
  • Exame físico direcionado
  • Exames complementares quando indicados

Essa abordagem permite identificar os mecanismos envolvidos — especialmente importante em condições como a fibromialgia, em que o diagnóstico é clínico.

Abordagem moderna da dor: um olhar integrativo

A Medicina da Dor atual utiliza um modelo biopsicossocial, reconhecendo que a dor é influenciada por fatores físicos, psicológicos, metabólicos e ambientais.

O tratamento é multimodal e individualizado, combinando diferentes estratégias:

Tratamentos farmacológicos e intervencionistas

O uso de medicamentos é sempre individualizado, podendo incluir analgésicos, anti-inflamatórios, antidepressivos, anticonvulsivantes, terapia de reposição hormonal, suplementação mineral e protéica e, em situações específicas,  uso de opioides sob rigoroso critério médico.

Além disso, técnicas intervencionistas têm papel importante no manejo da dor, especialmente em quadros musculoesqueléticos e articulares, como:

  • Infiltrações articulares e periarticulares
  • Procedimentos guiados para pontos gatilho (trigger points) 
  • Radiofrequência para modulação da dor
  • Técnicas minimamente invasivas

Essas abordagens permitem atuar diretamente nos focos de dor e modular vias nociceptivas de forma mais precisa.

Terapias não farmacológicas e integrativas

Cada vez mais, compreende-se que o controle da dor — especialmente em condições como a fibromialgia — depende fortemente de estratégias não medicamentosas.

Entre as principais:

  • Acupuntura, incluindo técnicas como agulhamento seco, eletroacupuntura e abordagens guiadas por recursos tecnológicos como câmera térmica (FLIR) 
  • Laserterapia e fotobiomodulação, com ação anti-inflamatória e analgésica
  • Exercício físico orientado e estruturado, um dos pilares do tratamento da dor crônica
  • Fisioterapia e reabilitação funcional como objetivo claro traçado 
  • Técnicas de relaxamento e manejo do estresse (gerenciamento dos pensamentos, higiene do sono e demais)

Essas terapias atuam tanto na modulação periférica quanto central da dor.

Fatores fundamentais no tratamento da dor

Um dos principais avanços na Medicina da Dor é o entendimento de que tratar apenas o sintoma não é suficiente. É essencial abordar fatores que perpetuam ou amplificam a dor:

Qualidade do sono
Distúrbios do sono estão diretamente relacionados ao aumento da percepção dolorosa, sendo especialmente relevantes na fibromialgia.

Nutrição e inflamação
A alimentação influencia processos inflamatórios e metabólicos, podendo impactar diretamente a dor.

Saúde mental
Ansiedade, depressão e estresse crônico modulam a dor e devem ser abordados de forma integrada.

Equilíbrio hormonal
Alterações hormonais, especialmente em mulheres no climatério, podem influenciar sintomas dolorosos, sono e disposição, sendo um ponto importante na avaliação individualizada.

Dor não é “normal” — e não deve ser negligenciada

Muitas pessoas convivem com dor por longos períodos acreditando que isso faz parte do envelhecimento ou da rotina. No entanto, a dor persistente merece avaliação adequada.

Condições como a fibromialgia exemplificam bem esse cenário: frequentemente subdiagnosticadas, podem gerar impacto significativo na qualidade de vida quando não reconhecidas e tratadas corretamente.

Um cuidado individualizado

Cada paciente é único. O tratamento da dor deve ser personalizado, respeitando as particularidades clínicas, os objetivos terapêuticos e o contexto de vida.

A proposta da Medicina da Dor é oferecer um cuidado completo, baseado em ciência, escuta ativa e estratégias terapêuticas integradas — com foco real na funcionalidade e na qualidade de vida.


Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica individualizada.  

Agende sua avaliação: 



sábado, 25 de outubro de 2025

Inflammaging: a inflamação silenciosa que acelera o envelhecimento

 Vivemos mais, mas nem sempre com a qualidade de vida que desejamos — e uma das explicações vem de um conceito emergente da medicina de longevidade: o termo Inflammaging. Trata-se de uma inflamação de baixo grau, persistente e silenciosa, que surge com o envelhecimento do organismo e que pode funcionar como “combustível” para doenças crônicas que antes pensávamos serem inevitáveis com a idade.

Na prática, mesmo sem infecção ativa ou quadro clínico agudo, o corpo vai acumulando sinais inflamatórios: pequenas «chamas» internas acesas por muitos anos. Essas fagulhas silenciosas geram estresse oxidativo, alterações no sistema imune, desequilíbrio metabólico — e contribuem para a aceleração do envelhecimento biológico, ou “idade real maior que a cronológica”. 

Por que isso importa para você paciente? Porque o inflammaging está ligado ao risco aumentado de doenças como:

O que favorece esse estado inflamatório?
Alguns fatores conhecidos: acúmulo de gordura visceral, sedentarismo, alimentação desequilibrada, alterações da microbiota intestinal, estresse crônico, sono de má qualidade, e o envelhecimento das células-chave do sistema imune.

Mas há boas notícias: esse processo não está totalmente fora de controle — e pode ser modulado com estratégias de estilo de vida. Aqui vão dicas práticas que você, como paciente (ou com o apoio da sua médica), pode começar a adotar:

  1. Movimente-se: atividade física regular ajuda a reduzir inflamação, melhora o metabolismo e favorece o equilíbrio imunológico.

  2. Alimente-se bem: priorize alimentos mais naturais, ricos em fibras, com menor processamento; evite excesso de açúcares simples, carnes processadas e gordura saturada.

  3. Cuide do sono e do estresse: uma boa noite de sono (idealmente 7-9h, dependendo da idade) e estratégias de relaxamento reduzem o impacto inflamatório do dia a dia.

  4. Controle o peso corporal e a gordura visceral: mesmo pequenas reduções de gordura abdominal fazem diferença.

  5. Valorize a saúde intestinal e imune: manter a microbiota saudável (via alimentação, evitar uso desnecessário de antibióticos, etc) ajuda a evitar que o “meio interno” fique propício à inflamação de baixo grau.

  6. Monitore-se com acompanhamento médico: exames de rotina, discussão de fatores de risco cardiovascular, metabólico e imunológico podem ajudar a identificar e intervir precocemente.

TAKE HOME MESSAGE

O inflammaging nos lembra que o envelhecimento não é apenas “tempo no relógio”, mas “tempo no corpo” — e que esse “tempo” pode ser mais ou menos bem vivido dependendo das escolhas que fazemos hoje. 

sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Jejum intermitente e resistência à insulina

 


O jejum intermitente tem ganhado espaço não apenas como estratégia para emagrecimento, mas também como uma forma eficaz de melhorar o metabolismo e restaurar a sensibilidade à insulina.

Mais do que uma dieta, ele representa um retorno ao ritmo natural do corpo — períodos de alimentação intercalados com momentos de repouso metabólico.

Durante o jejum, o organismo reduz a liberação de insulina e passa a utilizar gordura como principal fonte de energia. Essa pausa nos estímulos alimentares constantes permite que as células recuperem a sensibilidade à insulina, reduzindo o acúmulo de gordura abdominal e melhorando o controle da glicose no sangue.

Com o tempo, essa prática contribui para diminuir a resistência insulínica, um dos principais mecanismos associados à obesidade, síndrome metabólica, esteatose hepática e risco de diabetes tipo 2.

Além dos efeitos sobre a glicose, o jejum intermitente estimula a autofagia, um processo natural de “limpeza celular” que remove estruturas danificadas e reduz inflamações de baixo grau.
Também pode melhorar o perfil lipídico, a pressão arterial e marcadores de estresse oxidativo.

Existem diferentes formas de jejum, sendo as mais comuns:

  • 16:8 – 16 horas em jejum e 8 horas de janela alimentar;

  • 14:10 – jejum de 14 horas, mais leve e acessível à maioria das pessoas;

  • 5:2 – dois dias da semana com restrição calórica importante;

  • 23:1 (OMAD) – conhecido como One Meal a Day, consiste em permanecer 23 horas em jejum e concentrar toda a ingestão alimentar em uma única refeição diária.
    Essa modalidade exige acompanhamento médico e nutricional rigoroso, pois, embora possa favorecer o controle glicêmico e a autofagia, não é indicada para todos os perfis metabólicos.

Durante o jejum, é permitido consumir água, café preto sem açúcar e chás sem calorias. Na janela alimentar, é importante priorizar alimentos naturais: proteínas magras, gorduras boas e vegetais.

Quando bem orientado, o jejum intermitente ajuda o corpo a recuperar sua flexibilidade metabólica — a capacidade de alternar entre glicose e gordura como combustível — e se torna um aliado poderoso na prevenção e tratamento da resistência à insulina.


O jejum não é sobre privação, e sim sobre dar ao corpo tempo para requisitar os estoques energéticos e desinflamar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Magnésio e Dor Crônica: qual a relação?

 

A dor crônica é uma condição que vai muito além do desconforto físico. Ela afeta o sono, o humor, a energia e, muitas vezes, o prazer de viver. É um estado em que o corpo parece “não desligar” o sinal da dor, mesmo quando já não há uma lesão evidente. Entre os diversos fatores que influenciam esse processo, um mineral se destaca por sua importância silenciosa, mas essencial: o magnésio.

O magnésio participa de mais de 300 reações químicas no organismo, sendo fundamental para a produção de energia, o relaxamento muscular, a regulação dos nervos e o equilíbrio emocional. Quando seus níveis estão baixos, o corpo pode apresentar sintomas como cansaço, tensão muscular, câimbras, irritabilidade, ansiedade e dor generalizada — muito parecidos com os relatados por pessoas com fibromialgia.

Nos últimos anos, vários estudos mostraram que pacientes com fibromialgia tendem a ter níveis reduzidos de magnésio no sangue e nos tecidos. Essa deficiência pode aumentar a sensibilidade à dor e favorecer processos inflamatórios e de fadiga muscular. O magnésio ajuda a “acalmar” o sistema nervoso e atua como um modulador natural da dor, reduzindo a atividade de receptores cerebrais que amplificam os estímulos dolorosos.

Além disso, o magnésio tem efeito direto sobre o sono e o relaxamento, pois participa da produção de neurotransmissores que promovem tranquilidade e bem-estar, como o GABA. Por isso, pessoas que usam magnésio de forma adequada costumam relatar melhora na qualidade do sono, diminuição da ansiedade e redução da dor muscular.

Existem diferentes tipos de magnésio, e alguns são mais indicados para cada necessidade:

A suplementação deve sempre ser orientada por um profissional, pois o excesso também pode causar desconforto intestinal ou interagir com outros medicamentos.
Além disso, é importante associar o magnésio a hábitos que fortalecem o equilíbrio do organismo: boa alimentação, atividade física leve e sono de qualidade.

O magnésio não é uma “cura” para a fibromialgia, mas pode ser um grande aliado na redução da dor e na melhora da vitalidade. É uma forma segura e natural de apoiar o corpo em seus próprios mecanismos de equilíbrio e regeneração.

domingo, 5 de outubro de 2025

OUTUBRO ROSA: cuidar de si é um ato de amor!

 

Outubro é o mês de lembrar, reforçar e agir.

O Outubro Rosa não é apenas uma campanha — é um convite para que mulheres de todas as idades olhem para si com atenção, carinho e responsabilidade.

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo. Quando diagnosticado precocemente, as chances de cura ultrapassam 90%. Isso mostra que o diagnóstico precoce é uma das formas mais poderosas de salvar vidas.

O autoexame das mamas é uma ferramenta importante de autoconhecimento, mas não substitui o exame clínico nem a mamografia. O rastreamento é essencial, e o Brasil deu um passo importante nesse sentido: a partir de 2025, o Ministério da Saúde ampliou a faixa etária de acesso à mamografia no SUS, permitindo que mulheres a partir dos 40 anos possam realizar o exame, mesmo sem sintomas, após decisão compartilhada com o profissional de saúde.

Além disso, a nova diretriz recomenda o rastreamento populacional regular para mulheres entre 50 e 74 anos, a cada dois anos. Essa atualização torna o cuidado mais acessível e alinhado à realidade atual das mulheres brasileiras, garantindo mais oportunidades de diagnóstico precoce e de cuidado integral.

A prevenção, no entanto, vai muito além do exame. Ela começa nas escolhas diárias que fortalecem o corpo, equilibram os hormônios e refletem o respeito à própria saúde.
Manter uma alimentação natural e rica em fibras, praticar atividade física com regularidade, dormir bem, evitar o tabagismo e o consumo de álcool e cultivar o bem-estar emocional são atitudes que reduzem o risco de adoecimento e promovem qualidade de vida.

A saúde feminina é integral — corpo, mente e hormônios trabalham em sintonia.
Cuidar de um é cuidar de todos. 🌸

“O Outubro Rosa é mais do que um mês de conscientização — é um lembrete de que autocuidado e prevenção são formas de amor-próprio e respeito pela vida.
Se ainda não fez seus exames este ano, converse com seu médico e agende sua mamografia. Cuidar de si é um ato de amor. 💖

Porque prevenção é vida.
E a vida merece ser celebrada. 🌸✨

domingo, 3 de agosto de 2025

ANDAR 7 MIL PASSOS POR DIA PODE MUDAR SUA SAÚDE


 Você não precisa correr maratonas nem passar horas na academia para começar a transformar sua saúde. A ciência mostra que caminhar ao menos 7.000 passos por dia já está associado a benefícios expressivos para a longevidade, saúde cardiovascular, controle metabólico e saúde mental.

Coração mais protegido

Estudos indicam que pessoas que caminham 7.000 passos por dia têm redução significativa no risco de mortalidade por causas cardiovasculares. A atividade leve a moderada regular ajuda a reduzir a pressão arterial, melhora o perfil lipídico e reduz a inflamação crônica.

Corpo em movimento, mente ativa

Caminhar diariamente estimula o fluxo sanguíneo cerebral, melhora o humor, reduz a ansiedade e os sintomas depressivos. Além disso, previne o declínio cognitivo associado à idade.

Equilíbrio metabólico

Caminhadas regulares contribuem para o controle da glicemia, da resistência insulínica e do peso corporal, sendo uma ferramenta simples, barata e acessível para prevenção de doenças como diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.

Longevidade e vitalidade

Uma pesquisa de 2021 com mais de 2.000 adultos mostrou que andar 7.000 passos por dia estava associado a uma redução de até 70% na mortalidade por todas as causas, em comparação com quem andava menos de 5.000 passos.

Link para o aplicativo PACER


📌 A mensagem é simples:

Ande mais. Sente-se menos. Viva melhor.
Se você ainda não consegue atingir 10.000 passos, comece por 7.000. Isso já faz uma enorme diferença.



REFERÊNCIAS:

1. Paluch AE, Gabriel KP, Fulton JE, et al. Steps per Day and All-Cause Mortality in Middle-aged Adults in the Coronary Artery Risk Development in Young Adults Study. JAMA Netw Open. 2021;4(9):e2124516. doi:10.1001/jamanetworkopen.2021.24516


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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida


segunda-feira, 16 de junho de 2025

LUZ AZUL, MELATONINA E SONO: COMO A ILUMINAÇÃO AFETA SUA SAÚDE?




Nas últimas décadas, a exposição à luz artificial se tornou um dos fatores mais negligenciados quando falamos em saúde metabólica, mental e hormonal. E entre os tipos de luz que mais interferem nos nossos ritmos biológicos, a luz azul merece atenção especial.


O que é a luz azul e de onde ela vem?


A luz azul faz parte do espectro de luz visível e possui comprimento de onda curto (entre 400–495 nm), sendo naturalmente emitida pelo sol. No entanto, atualmente nossas principais fontes de luz azul artificial são:
  • Telas de celulares, computadores e TVs

  • Lâmpadas de LED e fluorescentes

  • Dispositivos eletrônicos em geral

Essas fontes prolongam artificialmente a exposição à luz azul durante a noite, o que tem impactos profundos sobre o ciclo circadiano.



Como a luz azul interfere na melatonina?



A melatonina é um hormônio produzido pela glândula pineal, cuja liberação está diretamente ligada à percepção de escuridão. Quando a retina detecta ausência de luz, especialmente luz azul, a produção de melatonina aumenta, sinalizando ao corpo que é hora de iniciar o processo do sono.

O problema é que a luz azul inibe a produção natural de melatonina, mesmo em baixa intensidade. Isso significa que:

  • O início do sono é retardado

  • O sono profundo (fase N3) é comprometido

  • A qualidade do descanso é reduzida

  • Há desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA)



Por que a melatonina é tão importante?


Muito além do sono, a melatonina tem efeitos antioxidantes, anti-inflamatórios, neuroprotetores e imunomoduladores. Sua produção adequada está associada à:
  • Regulação do metabolismo energético

  • Modulação do humor e saúde mental

  • Proteção mitocondrial e do DNA

  • Qualidade do sistema imunológico

Baixos níveis de melatonina têm sido correlacionados com maior risco de depressão, distúrbios de ansiedade, obesidade, diabetes tipo 2 e doenças neurodegenerativas.



Como a luz vermelha pode ajudar à noite?

Diferentemente da luz azul, a luz vermelha (comprimento de onda > 620 nm) não suprime a melatonina — e pode inclusive estimular sua liberação em ambientes escuros, segundo estudos recentes.

A exposição à luz vermelha suave no período noturno:

  • Não atrapalha o ritmo circadiano

  • Pode facilitar o relaxamento

  • É uma alternativa mais segura para iluminação noturna em quartos e banheiros

  • Está sendo estudada como coadjuvante em intervenções para insônia e ansiedade leve



Estratégias práticas

  • Evitar o uso de telas 1 a 2 horas antes de dormir

  • Ativar filtros de luz azul em dispositivos eletrônicos após o pôr do sol

  • Preferir luzes âmbar ou vermelhas em ambientes noturnos

  • Manter o quarto escuro ou com iluminação vermelha fraca durante a madrugada

  • Avaliar, com orientação médica, o uso pontual de melatonina em casos específicos



TAKE-HOME MESSAGE: 

📌 Cuidar da higiene da luz é cuidar da higiene do sono — e, por consequência, da saúde mental, metabólica e imunológica.


📚 Referências


  1. Cajochen, C., Frey, S., Anders, D., Späti, J., Bues, M., Pross, A., Stefani, O., & Wirz-Justice, A. (2011). Evening exposure to a light-emitting diodes (LED)-backlit computer screen affects circadian physiology and cognitive performance. Journal of Applied Physiology, 110(5), 1432–1438. https://doi.org/10.1152/japplphysiol.00165.2011

  2. Gooley, J. J., Chamberlain, K., Smith, K. A., Khalsa, S. B. S., Rajaratnam, S. M. W., Van Reen, E., Zeitzer, J. M., Czeisler, C. A., & Lockley, S. W. (2011). Exposure to room light before bedtime suppresses melatonin onset and shortens melatonin duration in humans. The Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, 96(3), E463–E472. https://doi.org/10.1210/jc.2010-2098

  3. Figueiro, M. G., Wood, B., Plitnick, B., & Rea, M. S. (2011). The impact of light from computer monitors on melatonin levels in college students. Neuro Endocrinology Letters, 32(2), 158–163. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/21552190/

  4. Zhou, J., Liu, D., Li, X., Ma, X., Fang, J., & Zhang, J. (2012). Light exposure before sleep and its impact on sleep quality: A clinical review. Sleep and Biological Rhythms, 10(1), 50–59. https://doi.org/10.1111/j.1479-8425.2011.00515.x



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Forte abraço,
Danielle Almeida
Médica CRM- RS: 59632

sábado, 14 de junho de 2025

DORMIR BEM É MAIS DO QUE DEITAR E FECHAR OS OLHOS: AS FASES DO SONO E O DESAFIO DO TRABALHO NOTURNO


Dormir é uma das funções biológicas mais essenciais para a manutenção da saúde física, mental e imunológica. Mas nem todo sono é igual — e entender as fases que compõem o ciclo do sono pode ser o primeiro passo para melhorar sua recuperação, equilíbrio hormonal e desempenho cognitivo.



As fases do sono: um ciclo essencial à saúde

O sono é dividido em duas grandes categorias:

  • Sono não REM (NREM)

  • Sono REM (movimento rápido dos olhos)

O sono NREM é composto por três estágios progressivos de profundidade: N1, N2 e N3. A cada 90 a 110 minutos, passamos por um ciclo completo (NREM (3 fases) → REM), e uma boa noite de sono contém entre 4 e 6 desses ciclos.



Fase N3: o sono profundo e restaurador


A fase N3, também chamada de sono de ondas lentas ou sono delta, é o estágio de sono mais profundo e reparador. Durante essa fase:
  • liberação intensa do hormônio do crescimento (GH)

  • O corpo realiza reparos musculares, teciduais e ósseos

  • O cérebro ativa o sistema glinfático (células da glia e linfático), responsável por “limpar” resíduos metabólicos

  • A imunidade é reforçada por meio da produção de citocinas anti-inflamatórias

  • Ocorre consolidação de memórias declarativas

Pessoas que despertam durante essa fase tendem a se sentir mais desorientadas e sonolentas. É por isso que despertadores que respeitam o ciclo natural do sono (como apps que analisam movimento corporal) vêm ganhando espaço.



Qual o melhor horário para dormir?

De acordo com estudos em cronobiologia, o corpo humano segue um ritmo circadiano natural — sincronizado com a luz solar e a liberação de melatonina.

  • A melatonina começa a subir entre 20h e 22h, com pico entre 2h e 4h da manhã

  • A fase N3 ocorre com maior intensidade nas primeiras horas do sono noturno

  • Dormir entre 22h e 23h tende a ser mais eficiente para recuperação física e hormonal, principalmente para quem deseja manter equilíbrio metabólico, desempenho cognitivo e imunidade

Ir dormir após 1h da manhã, mesmo que a duração total do sono seja mantida, pode prejudicar a proporção de fases profundas e comprometer a regulação do eixo HHA (hipotálamo-hipófise-adrenal).



E quem trabalha à noite? Como minimizar os efeitos?

Sabemos que trabalhar no turno da noite ou em plantões rotativos é uma realidade para muitas pessoas, especialmente na área da saúde, indústria, segurança e transporte. Embora o sono noturno seja o mais alinhado ao nosso ritmo biológico, existem estratégias eficazes para reduzir os impactos da inversão desse ciclo e promover mais equilíbrio mesmo em rotinas noturnas.

Estratégias possíveis:

  • Ambiente de sono escuro e silencioso após o turno (cortinas blackout, protetores auriculares)

  • Uso de óculos bloqueadores de luz azul ao sair do trabalho pela manhã

  • Evitar cafeína nas últimas horas do turno

  • Priorizar sonecas estruturadas antes e depois do trabalho

  • Em casos específicos, melatonina em dose baixa e controlada e outros ativos fitoterápicos, sob orientação médica

  • Manutenção de horários regulares de sono nos dias de folga, para evitar disritmias

Estudos mostram que mesmo nesses cenários, manter a quantidade total e a qualidade do sono N3 e REM reduz os impactos no humor, memória, imunidade e saúde cardiovascular.



Dormir bem é um cuidado essencial

O sono não é perda de tempo — é um estado ativo e vital que determina desde o equilíbrio emocional até a resistência imunológica. Reconhecer suas fases, respeitar o ritmo biológico e adotar estratégias inteligentes é parte essencial do autocuidado.



📚 Referências

  1. Cirelli, C., & Tononi, G. (2017). Effects of sleep and waking on brain function and plasticity. Current Opinion in Neurobiology, 44, 96–102. https://doi.org/10.1016/j.conb.2017.03.006

  2. Mander, B. A., Winer, J. R., & Walker, M. P. (2017). Sleep and human aging. Neuron, 94(1), 19–36. https://doi.org/10.1016/j.neuron.2017.02.004

  3. Goel, N., Basner, M., Rao, H., & Dinges, D. F. (2013). Circadian rhythms, sleep deprivation, and human performance. Progress in Molecular Biology and Translational Science, 119, 155–190. https://doi.org/10.1016/B978-0-12-396971-2.00007-5

  4. Akerstedt, T., & Wright, K. P. (2009). Sleep loss and fatigue in shift work and shift work disorder. Sleep Medicine Clinics, 4(2), 257–271. https://doi.org/10.1016/j.jsmc.2009.03.001

  5. Wright, K. P., Jr., McHill, A. W., Birks, B. R., Griffin, B. R., Rusterholz, T., & Chinoy, E. D. (2013). Entrainment of the human circadian clock to the natural light-dark cycle. Current Biology, 23(16), 1554–1558. https://doi.org/10.1016/j.cub.2013.06.039



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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida


sábado, 7 de junho de 2025

O PODER DO MOVIMENTO NO TRATAMENTO DA DOR CRÔNICA

 

A dor musculoesquelética crônica é um dos maiores desafios de saúde pública global, afetando cerca de 30% da população mundial. Entre as mulheres, essa condição é ainda mais prevalente: estudos indicam que mais de 40% das mulheres adultas sofrem com algum tipo de dor crônica persistente, sendo duas vezes mais afetadas que os homens. As causas são multifatoriais, envolvendo desde aspectos hormonais até maior suscetibilidade à sensibilização central, um fenômeno em que o sistema nervoso amplifica a percepção da dor.

Um dos quadros mais comuns e incapacitantes dentro desse espectro é a fibromialgia, que atinge entre 6% e 8% das mulheres, sobretudo entre os 30 e 60 anos de idade. A dor é generalizada, persistente, frequentemente acompanhada de fadiga intensa, distúrbios do sono, alterações cognitivas (o conhecido “fibrofog”) e grande impacto funcional. A prevalência atinge seu pico entre os 40 e 55 anos, justamente quando muitas mulheres enfrentam desafios hormonais, emocionais e metabólicos.

O tratamento padrão-ouro para a fibromialgia e outras síndromes de dor crônica não é medicamentoso, mas sim multimodal, estruturado em três pilares principais:

  • Educação em dor baseada em neurociência;

  • Exercício físico supervisionado e progressivo;

  • Terapias cognitivo-comportamentais, com foco em sono, estresse e comportamento funcional.

Como médica, venho constantemente orientando minhas pacientes para a adoção gradual e estruturada de mudanças de estilo de vida (a famosa MEV 😊) — não como uma obrigação genérica, mas como um componente terapêutico ativo e essencial. A prática clínica tem mostrado que intervenções bem conduzidas em sono, alimentação, movimento e manejo do estresse transformam profundamente o prognóstico dessas pacientes.

Nesse contexto, uma revisão publicada recentemente no Journal of Functional Morphology and Kinesiology reforça essa abordagem, posicionando o exercício físico como um verdadeiro modulador central da dor crônica. Ele promove analgesia neuroquímica (via endorfinas, serotonina e endocanabinoides), reduz a sensibilização central e ainda atua em diversos eixos de estilo de vida: melhora a qualidade do sono, modula o eixo do estresse, regula o apetite e contribui na cessação de hábitos nocivos como o tabagismo.

Ou seja, o movimento deixa de ser uma recomendação genérica e se torna uma ferramenta terapêutica robusta, com efeitos duradouros sobre a dor e seus fatores perpetuadores. E quando inserido em um plano individualizado e consciente, torna-se um verdadeiro aliado da autonomia e do bem-estar.



1. Alívio da dor e neuroplasticidade

  • Atividade física estimula a liberação de endorfinas, endocanabinoides, dopamina e serotonina .

  • Reduz a sensibilização central e a neuroinflamação.

  • Melhora a função mitocondrial e regula neurotransmissores associados à dor e bem-estar.



2. Sono de qualidade

  • Exercício melhora o sono profundo (fase N3) e a regulação do ciclo circadiano.

  • Reduz níveis de citocinas inflamatórias e aumenta melatonina e serotonina.

  • Pode ser combinado com terapia cognitivo-comportamental para insônia em pacientes com dor crônica.



 3. Redução do estresse

  • Diminui o tônus simpático basal e os níveis de cortisol.

  • Favorece resiliência emocional e melhora a tolerância ao estresse.

  • A prática em grupo ou em ambientes naturais potencializa esses efeitos.



4. Impacto positivo na alimentação e metabolismo

  • Aumenta a sensibilidade à insulina e regula hormônios como leptina e grelina, ajudando no controle do apetite.

  • Reduz compulsões alimentares e melhora a relação emocional com a comida.

  • Favorece padrões dietéticos anti-inflamatórios e modula o sistema de recompensa cerebral.



5. Redução do tabagismo

  • Reduz a recompensa associada ao fumo, aliviando sintomas de abstinência e ansiedade.

  • Estimula os sistemas dopaminérgico e endocanabinoide, ajudando na cessação do tabaco.

  • Melhora o autocontrole e a saúde mental, fortalecendo a adesão ao processo de parar de fumar.



TAKE-HOME MESSAGE: 

A atividade física não é apenas uma estratégia complementar — ela é central na abordagem integrativa da dor crônica. Seus efeitos cruzam domínios como sono, estresse, nutrição e dependência química. Programas personalizados, associados à educação em dor, nutrição e estratégias comportamentais, promovem resultados mais duradouros e sustentáveis.



📚 Referências

  1. Núñez-Cortés R, Salazar-Méndez J, Nijs J. Physical Activity as a Central Pillar of Lifestyle Modification in the Management of Chronic Musculoskeletal Pain: A Narrative Review. J Funct Morphol Kinesiol. 2025;10(2):183. DOI: 10.3390/jfmk10020183

  2. Dellaroza MSG, Pimenta CAM, Matsuo T. Prevalência e características da dor crônica em adultos da comunidade. Rev Bras Anestesiol. 2007;57(6):607-613. Disponível em: https://www.scielo.br/j/brjp/a/Ycrw5pYxPJnwzmkKyBvjzDC/

  3. Castro M, Quarantini LC, Batista-Neves S, et al. Fibromialgia: estudo sobre prevalência, comorbidades e características clínicas. Rev Bras Reumatol. 2011;51(5):361-365. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbr/a/sxgGPbXJCrFy7CTf7f5szPS/




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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida







sábado, 31 de maio de 2025

NOTA SOBRE O ARTIGO " TESTOSTERONA EM MULHERES"

 

Embora o artigo seja de 2013, ele traz apontamentos valiosos sobre a fisiologia feminina, um tema frequentemente abordado de forma inadequada em materiais didáticos. Um problema recorrente é a representação gráfica das oscilações hormonais: quando a testosterona é incluída junto com o estradiol e a progesterona, os gráficos muitas vezes desconsideram as diferenças de unidades. A testosterona, cujos valores estão em uma escala maior (ex.: ng/dL), é plotada na mesma escala numérica que o estradiol e a progesterona, que possuem unidades menores (ex.: pg/mL), ignorando a necessidade de uniformização das unidades – um princípio básico para a análise de dados em ciências exatas. Este artigo é apenas um exemplo entre diversos estudos que abordam o tema, e pretendo compartilhar mais referências como esta aqui no blog ao longo do tempo.

Entendendo as unidades hormonais

1. Testosterona

  • Geralmente expressa em ng/dL (nanogramas por decilitro)

  • Faixa em mulheres: 15 a 70 ng/dL

  • Produção diária de 0,6 mg/dia, sendo em torno de 50% do ovário e 50% da glândula adrenal. 

2. Estradiol (E2)

  • Expressa em pg/mL (picogramas por mililitro)

  • Faixa em mulheres férteis: 30 a 400 pg/mL, variando conforme o ciclo

3. Progesterona

  • Expressa em ng/mL (nanogramas por mililitro)

  • Fase lútea: 5 a 20 ng/mL

Mas atenção:
1 ng = 1.000 pg, ou seja, são três ordens de grandeza de diferença entre ng/mL e pg/mL.
Além disso, ng/dL é diferente de ng/mL, já que 1 dL = 100 mL.

Portanto, ao colocar os três hormônios em um mesmo gráfico sem converter as unidades para uma escala compatível (por exemplo, todos em pmol/L ou todos em ng/mL), ocorre um erro conceitual que viola a base da análise de dados em ciências exatas.

Este é um exemplo de gráfico plotado sem uniformidade nas unidades de medida, o que pode induzir a interpretações equivocadas sobre a dinâmica hormonal.
Fonte: Coelingh Bennink, H.J.T., Schultz, I.J., Schmidt, M. et al. Progesterone from ovulatory menstrual cycles is an important cause of breast cancer. Breast Cancer Research. 2023;25:60. https://doi.org/10.1186/s13058-023-01661-0




Este é um exemplo de gráfico elaborado com uniformidade adequada das unidades de medida, extraído do artigo utilizado como base para a postagem “Testosterona em mulheres: mitos e evidências à luz da ciência”.
Fonte: Glaser, Rebecca et al. Testosterone therapy in women: Myths and misconceptionsMaturitas, Volume 74, Issue 3, pp. 230–234.




📚 Referências:


1. Sharma A, Welt CK. Practical Approach to Hyperandrogenism in Women. Med Clin North Am. 2021 Nov;105(6):1099-1116. doi: 10.1016/j.mcna.2021.06.008. Epub 2021 Sep 8. PMID: 34688417; PMCID: PMC8548673.

 

2. Sharon J. Parish, James A. Simon, Susan R. Davis, Annamaria Giraldi, Irwin Goldstein, Sue W. Goldstein, Noel N. Kim, Sheryl A. Kingsberg, Abraham Morgentaler, Rossella E. Nappi, Kwangsung Park, Cynthia A. Stuenkel, Abdulmaged M. Traish, Linda Vignozzi, International Society for the Study of Women’s Sexual Health Clinical Practice Guideline for the Use of Systemic Testosterone for Hypoactive Sexual Desire Disorder in Women, The Journal of Sexual Medicine, Volume 18, Issue 5, May 2021, Pages 849–867, https://doi.org/10.1016/j.jsxm.2020.10.009




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Forte abraço,
Dra. Danielle Almeida


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